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Camming-BR: Anúncio publicitário abusivo pede maratona de 72h no Natal

Updated: Jan 10

Por Drª Priscila Magossi


Você sabia que enquanto você terá a oportunidade de celebrar o Natal na noite de hoje, as camgirls brasileiras estão sendo estimuladas pelo site para o qual trabalham a ficarem online 72 horas seguidas, entre os dias 22/12 até 24/12? Como se não bastasse, ainda vão competir entre si, por um prêmio bobo depois?


Não estamos falando da Dark Web, tampouco de algum episódio do Black Mirror. Estamos falando do Camming-BR mesmo!


Papai Noel não esquece ninguém, mas Lawful Evil só entrega presentinho para quem fizer maratona no site dele!!! Ho ho ho



Não são medidos esforços para a empresa tentar convencer tanto as modelos quanto os usuários do site que esta manipulação cínica, cruel e perversa — que está acontecendo durante o NATAL! — não passa de uma brincadeira divertida para todos.


Mas e aquela historinha para boi de dormir de que "participa quem quer"?


Em primeiro lugar, liberdade significa poder de escolha entre opções que não sejam TODAS insalubres.


No caso, a opção que a empresa oferece à modelo é a escolha entre o ruim e o pior ainda:


(1) A modelo pode voluntariamente se sujeitar a uma tortura humilhante dessas por 3 dias e receber prêmio, visibilidade, reconhecimento da empresa para a qual trabalha, maior volume de usuário na sala — afinal, quem controla o site, controla o tráfego de usuários — ou;

(2) respeitar a si e mesma, não fazer maratona nenhuma, e aceitar a punição (violência simbólica) da empresa depois. A punição consiste em aparecer lá para baixo da lista entre as modelos conectadas, a conexão da sala estar sempre instável, não receber usuário para atender, etc. Isso só para começo de conversa.


Os representantes-capatazes são contratados para encontrar quem tenha predisposição à alienação e à servidão voluntária, assim como são remunerados para identificar e abafar a voz dos críticos e dos subversivos.


Entretanto, você, leitor, deve saber que todo mundo do planeta Terra trabalha porque precisa. Só a camgirl está à toa na frente da webcam porque sente muito prazer, em pleno Natal?!?! Não seja otário!


O camming não é o "Uber do Pornô!"


Maratonas de 72h não são escolhas. São jornadas de trabalho desumanas impostas por um setor mais desumano ainda! A Indústria de Live Cams é um mercado que precisa, urgentemente, ser ressignificado!


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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017).


Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): Trata-se de (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.


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SOBRE O ARTIGO

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal.

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