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Combate ao Camming-Black-Mirror

Updated: Dec 26, 2020

Por Drª Priscila Magossi (PUC-SP)


Black Mirror é um seriado da Netflix em cujos episódios são apresentados futuros obscuros a partir de elementos muito próximos da civilização tecnológica atual. No decorrer dos últimos anos, a Indústria do camming internacional tem decaído para um nível de "vale-tudo" tão assustador que os episódios do Black Mirror soam como contos-de-fadas da Disney.


Vive-se um momento da História em que a crueldade foi transformada em espetáculo. Não há mais como viver num (ciber)mundo em que as decisões que se tem para tomar são entre o ruim e o pior ainda, e não se indignar. Para se combater um sistema opressor, é preciso assumir uma postura de anti-herói.


O projeto New Camming Perspective (NCP) opera diretamente em prol da contenção de danos deste setor. O nosso objetivo é impedir que a barbárie já "naturalizada" na Indústria Internacional chegue até o Brasil como qualquer lawful evil adoraria!


Lawful Evil = cai como uma luva para os empresários-mercenários do setor que por alguma razão obscura não gostam de ser associados publicamente ao próprio empreendimento!


"Freemium" cam sites: o esgoto da Indústria de Camming


Entre as práticas mais abusivas do setor em todo o mundo estão os “vibradores interativos” (vibe toys) e as “máquinas de penetração interativas” (vendidas pelos fabricantes como “fucking machines”, mas, na prática, "rape machines" — máquinas de estupro 'consentido'). Tratam-se de objetos que ficam instalados no corpo da mulher durante o seu expediente de trabalho à espera do controle do usuário. A vibração da ferramenta significa que o usuário enviou à modelo alguma gorjeta. Isto é, finalmente houve remuneração financeira.


A publicidade desses sites estimula, também, diferentes níveis de tortura: vibrações “brutais” (“monster vibe”) e penetrações “ultra-high” (super potentes) custam mais caro. Essas atrocidades são cinicamente apresentadas como "grandes inovações tecnológicas" pelas empresas opressoras do setor.


Não é a deep web! É o chaturbate mesmo!



As modelos são encarregadas de comprar o seu próprio objeto de tortura, que não custa menos de R$1.500. Os "vibe toys" e as "rape machines" são fabricadas por poucas empresas que trabalham em parceria com os cam sites. As modelos recebem apenas uma comissão (%) do valor das gorjetas enviadas pelos usuários. Em geral, de 50% a 88% do valor enviado pelo usuário fica com os cam sites. Ou seja, os empresários-opressores do setor criaram um mercado lucrativo 100% às custas das modelos!


Ainda na lógica perversa de convencer as mulheres e os usuários de que tudo isso é razoável e muito prazeroso para todos, muitos cam sites transformam essa brutalidade em espetáculo, elegendo as mulheres que tiveram a “melhor performance interativa” (“best vibe performer”). Isto é, recebe um prêmio do site quem tiver suportado essas torturas físicas e psicológicas por mais tempo.


A premiação é um estímulo para que as próprias modelos passem a competir entre si, na busca por algum tipo de “reconhecimento” do site para o qual trabalham e, assim, “esqueçam” as violências às quais são obrigadas a se submeter como condição para conseguirem receber mais dinheiro. Sim, é um fenômeno cruel, brutal e perverso num nível tão bizarro que deixa qualquer episódio do Black Mirror no chinelo.


Neste momento, convidamos o leitor a dispender alguns minutos do seu dia e a visitar qualquer um dos cam sites "freemium" listados logo abaixo e a observar atentamente:

(1) como as modelos se apresentam; e

(2) como os usuários as (mal) tratam.


Best Black Mirror Platform Nominees:


"Premium" cam sites: a resistência!


Os últimos sites "premium" que ainda sobrevivem na Indústria Internacional são o CamContacts e o LiveJasmin. A concorrência para eles é completamente desleal. Deixamos, aqui, o nosso reconhecimento pelo esforço dessas empresas por continuarem operando de forma digna no setor!









"Premium" Camming-BR: é possível combater o faroeste digital!


Por enquanto, ainda é possível trabalhar no Camming-BR com alguma dignidade, pois foram desenvolvidas apenas plataformas no estilo "premium" por aqui. Entretanto, caso não haja movimento de contenção de danos em escala coletiva, a linha de base para ganhar algum dinheiro vai tender cada vez mais ao sadismo e à perversidade, conforme "inspira" grande parte da Indústria Internacional.


É fundamental que todas saibam que nos primórdios desta Indústria TODOS os sites operavam apenas no estilo "premium". A comunicação do usuário com a modelo se dava apenas em chat privado. Inclusive, apenas os usuários com créditos tinham acesso às fotos das modelos. Essa história de "chat grátis" e afins só começou depois do "boom" do MyFreeCams em 2008. De lá para cá, foi só ladeira abaixo.


As plataformas insistem para que as modelos trabalhem de graça, façam stories e baboseiras do tipo. Afinal, a sexualidade (dos homens e das mulheres) é apenas uma mercadoria para os empresários-opressores que trabalham na Indústria de Webcamming. Não há limites para a exploração 'consentida' do outro.


Portanto, é preciso deixar claro que toda vez que uma modelo evita a exposição gratuita da própria imagem, ela está:

(1) Protegendo seu ativo mais valioso (sua imagem);

(2) Economizando energia, que é um recurso limitado. É importante que cada modelo, individualmente, tenha em mente que o foco do seu trabalho é o usuário que lhe agrega valor e paga pelo seu trabalho em chat privado — e não os "urubus do grátis";

(3) Colaborando para que o seu próprio mercado de trabalho — o Camming-BR — não se torne um universo freemium rebaixado, estilo esgoto-vale-tudo.


Todo mundo aqui precisa estar consciente de que os movimentos desta Indústria — como os de qualquer outra! — são estrategicamente calculados. A finalidade do departamento de marketing de uma empresa é criar campanhas que estimulem determinado comportamento no consumidor no intuito de gerar lucro para os proprietários da própria empresa. A saúde física e mental do consumidor não é prioridade.


Ao longo do ano de 2020, temos visto mudanças positivas acontecer no Camming-BR. Parabéns a todas as modelos brasileiras que têm sido firmes para impedir que a brutalização se instale no Brasil e se torne um Black Mirror — como já aconteceu no camming mundial.



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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017).


Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): Trata-se de (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.

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SOBRE O ARTIGO

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal.

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