turquesa08-05.jpg
Search
  • newcammingperspective

Como somos manipulados pela indústria adulta digital sem percebermos

Updated: Oct 22, 2021



A indústria adulta digital é formada por um minúsculo oligopólio cartelizado de empresas que operam em sites de pornografia, webcamming e venda de conteúdo. Todos trabalham em regime de comunhão entre si. Isto significa que é totalmente impossível ressignificar ou humanizar este mercado sem reformular a sua estrutura de base. Ou seja, é fundamental denunciar as práticas desumanas. Afinal, quem controla o setor tende a manter o seu grupo seleto para que tudo continue como sempre foi, isto é, um faroeste digital.


Tal como ocorre nas redes sociais, tudo o que o usuário recebe em seu feed é hiper-customizado, pois todos os seus movimentos na rede são mapeados e os dados armazenados. Contudo, enquanto as redes sociais têm polarizado a opinião pública aos olhos de todos, a indústria adulta digital está degenerando o afeto e radicalizando a sexualidade em escala industrial e transnacional sem que ninguém perceba. Afinal, este é um setor econômico obscuro que lucra justamente com o vício das pessoas, mas vende a doença como se fosse o "antídoto".


Justamente por se tratar de uma indústria desregulamentada que opera à margem da lei e do debate público, a manipulação promovida pela indústria adulta digital não precisa ser tão sofisticada quanto aquela desenvolvida pelas redes sociais. Assim, essas empresas podem se dar ao luxo de ter um leque muito menor de variáveis com as quais lidar e trabalhar com profissionais bem menos escrupulosos também.


Acompanhe o passo-a-passo da manipulação cínica promovida por este obscuro setor econômico:


  • O usuário começa sua jornada em sites de pornografia, interessado em assistir uma mulher sensual em cenas com as quais haja alguma identificação com sua vida ordinária.

  • Finalizado o vídeo, os sites pornográficos apresentam um anúncio, ofertando ao usuário imagens das mulheres que participam de camsites e convidando-o a fazer ao vivo o que ele acabou de assistir no vídeo gravado: “por que apenas assistir pornografia se você pode fazer pornografia? Te convidamos para o próximo nível da sua experiência pornográfica! É totalmente ao vivo! Sexualmente interativo! Venha brincar conosco e entre na ação!”

  • Caso o usuário não tome nenhuma atitude, ou seja, nem saia do site porn para visitar a camgirl, tampouco escolha ativamente um outro vídeo do próprio site, então outro vídeo lhe é oferecido. Este próximo vídeo será um degrau mais agressivo, assim como o anúncio consecutivo. E assim sucessivamente.

  • O objetivo aqui é viciar o usuário com doses cada vez maiores de estímulos perversos e provocar seu imaginário para ansiar aquilo que ele nem sabia que seria possível existir.

  • Há todo um cuidado na preparação do “produto” que é o de fomentar na imaginação do usuário a possibilidade de realizar “suas” novas perversões de maneira bem à vontade com uma mulher, ao vivo, na webcam.

  • O homem, de tanto assistir e interagir com mulheres em cenários perversos "consentidos", efetivamente acredita que aquela experiência radicalizada é muito divertida para ambos. Isto é, ele não entende que se trata de uma prestação de serviço.

  • Esses homens que assistem a conteúdo adulto na internet se relacionam com mulheres em suas vidas ordinárias offline e passam a projetar em suas parceiras reais a mesma performance fabricada pela indústria adulta digital.


Assim, o referencial sexual de toda parcela da humanidade que consome conteúdo adulto na internet é moldado pelas diretrizes comerciais que orientam os “algoritmos” destes sites em todo o mundo.


Uma vez compreendida a gravidade do cenário em questão, é de relevância social máxima que este faroeste digital — que é a indústria adulta digital — passe a ser tema de debate público por jornalistas, cientistas sociais, promotores, isto é, por aqueles que não estejam se beneficiando de toda essa degradação humana, tais como representantes de marca e gerentes de site.




_______________________________________________

PRISCILA MAGOSSI é jornalista, Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pesquisadora da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber), e fundadora do projeto New Camming Perspective (NCP).



Todos os conceitos desenvolvidos pela pesquisadora Drª Priscila Magossi (PUC-SP/ABCiber/NCP) são de autoria própria e estão protegidos pela lei dos direitos autorais (Lei 9.610/98). Isto é, não se trata de uma publicação destinada a qualquer pessoa física e/ou jurídica, mas de uma pesquisa científica sobre o modus operandi da indústria adulta digital.


Qualquer plágio sobre este trabalho, por parte de qualquer pessoa física e/ou jurídica estará sujeita às penalidades da lei caso insista em fazer uso dos conceitos originais propostos neste estudo sem menção à autora e/ou pagamento de royalties.


Drª Priscila Magossi é assessorada juridicamente e representada legalmente por suas advogadas Drª Izadora Barbieri (OAB/SP n°371.254) e Drª Brenda Melo (OAB/MG nº189.092).

267 views0 comments