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Encorajamento da PERVERSÃO nos HOMENS pelo MARKETING do Camming

Updated: Jan 25

Por Drª Priscila Magossi



A publicidade gerada pela maioria das empresas da Indústria de Live Cams encoraja nos homens as piores formas possíveis de tratamento às mulheres. E isso é elaborado de modo extremamente cínico. Na maior parte dos casos, os anúncios publicitários vendem aos homens a falsa ilusão de que as mulheres sentem muito prazer em serem tratadas como objetos sexuais e que adoram ser subjugadas, o que inclui incentivo a tratamentos desumanos e a torturas físicas com toys (brinquedos) “inofensivos”.


Não se espera de um objeto que este seja capaz de sentir e de pensar, mas sim que cumpra a função para a qual foi criado. Quando as mulheres são enunciadas como mercadorias sexuais, a expectativa de quem as “consome” é a de que sejam obedientes, passivas, domesticadas, submissas e masoquistas.


Assim, veiculam-se anúncios publicitários com fotos das modelos e textos escritos pelo departamento de marketing das empresas, mas publicados em primeira pessoa do singular — como se a própria mulher estivesse pedindo para ser humilhada pelos usuários.


Seguem exemplos:


  • EN: Let me be your sex slave. I'll do whatever you want me to do on my webcam

PT: Deixe-me ser a sua escrava sexual! Eu vou fazer tudo o que você quiser na minha webcam!

  • EN: Don't come here looking for love. Get instant sexual satisfaction!

PT: Não venha aqui procurando por amor. Já receba satisfação sexual instantânea!

  • EN: Level 5 [Ultra High Vibration 60 seconds] activated! Thank you sweetheart, I love it!

PT: Nível 5 [Vibração de potência ‘Ultra High’ 60 segundos] ativada! Obrigada querido, eu amo isso!


Ou seja, enganar os usuários é parte fundamental das operações dessas empresas. Para a Indústria de Camming é essencial que o homem se sinta isento de qualquer responsabilidade, ética, moral ou culpa em relação ao tratamento degradante que será dado por ele à mulher.


Afinal, não são todos os consumidores que continuariam contratando o serviço — ao menos não nesse formato — caso tivessem consciência de que aquela servidão não é voluntária. Inclusive, muitos homens provavelmente rejeitariam esse tipo de serviço se soubessem o tanto de sofrimento gerado pelos bastidores da camming industry e que absolutamente todos os anúncios do setor são desenvolvidos com o intuito de (1) gerar lucro para os proprietários das empresas, e que (2) não é assim que a mulher gosta!


É de suma importância que seja compreendido, em todas as instâncias possíveis, que a publicidade do setor anuncia o serviço da Indústria do “Entretenimento” Adulto como sendo “entretenimento para todos, modelos e usuários, na mesma proporção”, entretanto, esta é uma mentira que precisa ser desvelada.


O usuário procura pelo serviço em seu momento de lazer, para se entreter. A profissional, por sua vez, trabalha para se sustentar financeiramente. Isto é, o momento em que a profissional está na frente da sua webcam é, justamente, o momento do expediente de trabalho.


A confusão da publicidade do setor entre o que é prazer e o que é o trabalho faz com que os usuários não queiram pagar pelo trabalho da modelo, e, assim, peçam para que ela (1) converse no “chat grátis” incansavelmente, (2) envie fotos e vídeos sem custos (3) esteja sempre disponível para suprir a carência deles gratuitamente.


Os usuários são insistentes em relação a esses pedidos ilógicos, pois é o próprio anúncio publicitário que está dizendo aos homens que todas as mulheres estão ali por puro prazer (como eles!), e não para trabalhar (como é o caso)! Portanto, é fundamental que seja explicado ao usuário que o momento de lazer é dele, não dela!



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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017). Organizador: Eugênio Trivinho.


Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.

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SOBRE OS ARTIGOS DA NCP

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal (por enquanto).

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