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Adoecimento das MODELOS pelo MARKETING do Camming

Updated: Jan 11


Por Drª Priscila Magossi (PUC-SP)



A publicidade da Indústria de Live Cams enuncia as mulheres como mercadorias sexuais para os usuários. A vergonha que as próprias modelos sentem da forma como este trabalho é veiculado pelos anúncios publicitários do setor é facilmente constatada pelo fato de que muitas passam a viver “vidas-duplas”. Isso começa já na criação da conta no cam site, momento em que as mulheres escolhem um apelido em vez do seu nome real, pois não querem ser associadas em sua vida privada à objetificação e à desumanização feminina. Em muitos casos, o constrangimento não é do trabalho, per se, mas da forma como a atividade profissional é comercializada


Afinal, por que alguém precisaria esconder seu trabalho da família e dos amigos caso tivesse a opção de apresentá-lo como uma atividade digna, e não como a forma degradante que esses anúncios dizem ser o trabalho da camgirl? O trabalho de uma camgirl não é fazer “qualquer coisa” que o usuário quiser em videochat — conforme os anúncios publicitários dizem — muito menos deveria ser ficar exposta em “chat grátis” à toa, o dia inteiro — como a maioria dessas empresas obrigam suas modelos a ficarem, caso queiram trabalhar no site.


Contudo, faz parte da estratégia da indústria de Live Cams manter as mulheres envergonhadas da sua atividade profissional, pois assim elas ficam mais vulneráveis. Obviamente, é muito mais fácil domesticar um indivíduo que vive escondido na periferia do imaginário social do que um sujeito verdadeiramente empoderado, seguro de si, que vive uma vida única e da qual se orgulha publicamente.


Portanto, é importante que isso ocorra exatamente dessa forma porque o maior medo de uma Indústria como essa — que opera de modo invisível, no subterrâneo da ética — é tornar-se foco das atenções. Assim sendo, o departamento de marketing do setor têm objetivos diferentes no que tange à manipulação do comportamentos dos usuários X das modelos:


(1) para os usuários é essencial encorajar perversões e maus-tratos às mulheres, mas isso é feito de modo sofisticado e sutil, pois eles devem acreditem que são as próprias modelos pedindo para serem humilhadas ("mas o anúncio diz que..", "é claro que tem quem goste desse jeito", "antes no site do que na rua"...)


(2) para as modelos é fundamental enganá-las, criando uma atmosfera de "acolhimento-doentio", de modo que elas continuem envergonhadas do seu trabalho, vivendo vidas-duplas, porém dependentes da "aprovação" do site para o qual prestam serviço.


Os cam sites estão plenamente cientes de que será possível exigir QUALQUER COISA das modelos caso:


(1) elas não sejam aceitas socialmente, e, assim, continuem dependendo do reconhecimento da Indústria Adulta para se sentirem acolhidas;

(2) estejam mentalmente adoecidas;

(3) compitam e briguem entre si;

(4) sintam medo do medo do bullying que uma pode causar à outra por estarem expostas em sites de pornografia e prostituição, pois cederam seus direitos autorais para o cam site fazer o que quiser com sua imagem e apelido, para sempre.


Em outras palavras, essas empresas não medem esforços para manter as mulheres completamente desconfortáveis em qualquer outro grupo social que não seja a Indústria Adulta. Inclusive, existem campanhas para isso, tais como: “Stop using mainstream platforms!” (Parem de usar plataformas do mainstream!). A relevância desse aprisionamento social é mantê-las sob vigília constante, domesticadas, submissas às imposições do setor — independentemente de qual seja o (próximo) abuso da vez.


Por isso, as plataformas de Camming estrategicamente validam o estímulo às práticas extremamente abusivas em troca de “prêmios”, visibilidade e fama difusa no setor, estimulando, assim, a competição, o bullying e o adoecimento mental das modelos.


Dessa forma, aos olhos de qualquer outra comunidade social, essas mulheres serão consideradas “loucas”, e não terão voz, tampouco respeito (“fazem porque querem”, “tem as que gostam”, “ninguém colocou arma na cabeça delas para fazerem isso”).


Assim, nenhuma Instituição vai questionar a barbárie invisível que acontece na Indústria de Live Cams, pois as próprias mulheres nunca se sentirão seguras para lutarem por seus direitos, uma vez que a própria Indústria destrói, propositalmente, a autoestima e a sanidade mental de quem adentra seu submundo.


Posto isso, o departamento de marketing de um cam site também se presta a função de confundir as modelos e não as deixar perceber o quanto de vida elas estão trocando por esta escolha momentânea, tampouco a gravidade do compromisso que estão firmando com o seu futuro.


Sim, a maioria das operações dos bastidores desse setor é repugnante.


A grande tragédia de tudo isso é que: ao contrário das todas as outras áreas do conhecimento e de atuação no mercado de trabalho, existem espaços públicos para discussão, reflexão e debate. Na indústria adulta, tanto as profissionais quanto os consumidores e até mesmo os funcionários-capatazes dessas empresas estão à mercê da tirania dos tomadores-de-decisão-invisíveis do setor.


Até o presente momento, a NCP vem atuando solitariamente na contenção de danos, na denúncia da barbárie e na luta pela humanização da indústria de Camming desde 2016. O objetivo, a partir de agora, é encontrar aliados dispostos a colocar um freio na barbárie e a reorientar os rumos desta Indústria. Portanto, é preciso que governos, legisladores, promotores públicos, juízes, jornalistas, e todos aqueles que se indignem compreendam a gravidade da situação.


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PS: Caso o tomador de decisão desse tipo de plataforma de Camming não fosse realmente um Lawful Evil, então não haveria a necessidade de estrategicamente condicionar o cadastramento de todas as modelos nos cam sites a terem que ceder o direito de uso ilimitado, irrevogável e infinito de todas as suas fotos e vídeos, inclusive das sessões privadas à empresa, para, depois, exigir que seus capatazes escrevam textos fofinhos disfarçando suas reais intenções. Obviamente um sujeito ético não tentaria manipular a lei a seu favor para criar um contrato leonino desses, assim como não faria o possível para manter sua identidade invisível, não é mesmo?


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SOBRE A AUTORA


Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017).

Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.


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SOBRE OS ARTIGOS DA NCP

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal (por enquanto).

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