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Camming: Evite exposição gratuita da sua imagem

Updated: Nov 22


Neste artigo, a NCP (New Camming Perspective) explica como o preço de determinado serviço é estabelecido pelo mercado, e porquê você deve evitar ao máximo exposição gratuita da sua imagem.


Vale pontuar que esses tópicos muito provavelmente não serão apresentados por uma campanha de marketing, pois o interesse de uma empresa é gerar lucro imediato, e não se preocupar com o futuro dos indivíduos que escolhem, voluntariamente, prestar serviços à empresa.



O que é demanda efetiva?


Demanda efetiva é a média matemática de quanto o mercado está disposto a pagar por um produto (SMITH, 2010). Em relação ao camming: quanto mais exclusivo for o serviço de uma modelo, mais dinheiro ela pode ganhar. É por isso que é importante evitar exposição gratuita da própria imagem. Porque não se compra o que é oferecido de graça. Na dúvida, pergunte a si mesmo/a: VOCÊ COMPRA O QUE ESTÁ DISPONÍVEL DE GRAÇA NO MERCADO?


Mas se a resposta é tão óbvia assim (NÃO), por que os cam sites insistem tanto que as modelos online sejam ativas em social media, e façam publicações recorrentes da sua intimidade gratuitamente?


A exposição gratuita da imagem de uma modelo é favorável para a empresa, pois uma métrica importante para atração de publicidade é o número de visualizações de um site. No entanto, não há vantagens para a modelo, que pode vir a ter seu futuro comprometido, em termos pessoais e profissionais.




Por que o pensamento crítico é ferramenta fundamental para a modelo online?


Tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal, o pensamento crítico torna-se ferramenta fundamental para a modelo online posicionar-se no setor. Posto isso, é importante ter em mente que a lei não estará ao lado da modelo online, quem tampouco poderá procurar qualquer organização social para protegê-la caso venha a se arrepender de decisões tomadas por impulso, pois não há nenhuma.


Desde o surgimento da Indústria de Live Cams, há mais de 20 anos (1999), a NCP é o primeiro projeto da Indústria Adulta focado na contenção de danos deste setor, que naturaliza tanto a objetificação quanto a desumanização do outro como ritualidades cotidianas.


Nesse contexto específico, o conceito de “objetificação” refere-se à redução das modelos online à ação sexual instantânea na webcam, e “desumanização” ao aniquilamento dos direitos humanos essenciais em prol da satisfação imediata do usuário durante as sessões de videochat. Tratam-se de processos que banalizam aspectos emocionais, subjetivos e psíquicos do indivíduo de modo que apenas a sua serventia importe. Uma característica determinante tanto da objetificação quanto da desumanização do outro é a invalidação dos pensamentos e dos sentimentos do outro. Não se espera que um objeto sinta e pense, mas sim que seja bonito, agradável. No caso das pessoas confundidas com produtos, a expectativa é a de que sejam obedientes, passivas.


O termo “ritualidade cotidiana" diz respeito ao padrão de ações concretas, empreendidas em ocasiões particulares, com determinada finalidade, configurando, assim, poderoso vetor de validação dos comportamentos e dos valores de uma comunidade (MAGOSSI, 2020).


No caso dos sites de webcamming no Brasil, o preço que uma modelo online paga para poder trabalhar recebendo em média 50% daquilo que produz é assinar um contrato no qual não lhe é concedido o direito de contestar nenhuma clausula, aceitando fornecer as suas fotos e os seus vídeos — publicados voluntariamente pela própria modelo online na plataforma — como material publicitário infinito, eterno e gratuito para a empresa usar como e quando quiser.


Este fenômeno é compreendido pelas ciências sociais aplicadas como violência simbólica ou violência invisível (TRIVINHO, 2007). O conceito refere-se a um tipo de violência que não é física (concreta), mas sensível (subjetiva). O que significa que quando somos violentamos de modo invisível ou simbólico logo sentimos, porém, dificilmente comprovaremos a violência, pois não há armas de fogo, ameaças físicas, etc. No entanto, a lógica em questão é a mesma da guerra: domesticar o indivíduo a partir do medo de perder aquilo que é indispensável para a sua sobrevivência (VIRÍLIO, 1996). No caso das modelos online, caso não assinem os contratos cedendo à plataforma a permissão legal para que seja feito uso do seu conteúdo — da forma como for conveniente à empresa —, elas simplesmente estarão impedidas de trabalhar no mercado.


Considerando todos os pressupostos acima, é como se tanto empresas do setor quanto usuários confundissem conceitos elementares: produto (objeto inanimado) x prestador de serviço (pessoa), e assim, se sentissem no direito de objetificar e desumanizar quem trabalha com beleza, sensualidade e/ou intimidade na frente da webcam, como se esta pessoa simplesmente não existisse em outras camadas da sua subjetividade.


Assim, levantamos as seguintes questões para as modelos online:

  • Você se orgulha da forma como você mesma está veiculando — ou cedendo a alguém o direito de veicular — a sua própria imagem?

  • Se você mudar de ocupação profissional no futuro, será possível remover o conteúdo postado?

Caso a resposta tenha sido negativa para as duas questões acima, levantamos uma terceira:

  • Seria possível adaptar o conteúdo que você está produzindo hoje para algo que também seja rentável para este mercado, mas que te deixe mais confortável com você mesma?


Para finalizar, é de suma importância deixar clara a mensagem de que não há legislação específica para o setor. As regras que estão em operação no mercado são determinadas pelos próprios camsites. Não há psicólogos e/ou cientistas sociais nos bastidores do setor auxiliando os tomadores de decisão a humanizar este segmento de mercado. Portanto, é imprescindível que haja reflexão da parte da modelo sobre a forma como ela mesma está veiculando a sua própria imagem.


Leia mais em : https://avn.com/business/articles/technology/op-ed-priscila-magossi-on-whats-in-a-price-890464.html




Bibliografia


BAUMAN, Zygmunt. Does ethics have a chance in a world of consumers? Harvard University Press, 2009.

LACAN, Jacques. The ethics of psychoanalysis 1959-1960: The seminar of Jacques Lacan. Routledge, 2013.

MAGOSSI, Priscila. Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço. Novas Edições Academicas, 2020.

MAGOSSI, Priscila. Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual: as ritualidades do ciberespaço e a aceleração da vida cotidana. In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual. Eugênio Trivinho (Organizador). CENCIB, AnnaBlume. 2017.

SMITH, Adam. The Wealth of Nations: An inquiry into the nature and causes of the Wealth of Nations. Harriman House Limited, 2010.

TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007.

VIRILIO, Paul. Velocidade e política. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.



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As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em específico. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular a reflexão e o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que — até o presente momento — não há (1) legislação específica em vigor que proteja as trabalhadoras e/ou (2) órgão responsável pela contenção de danos [humanização] do setor.

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