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Não esvazie a subjetividade de uma mulher

Por Priscila Magossi (PUC-SP)


Um músico não é o seu instrumento musical. Contudo, o objeto é indispensável para que ele expresse a sua subjetividade e, assim, produza a sua música, que é o produto que o seu público consome.


Imagino que o parágrafo acima esteja claro para todos. Entretanto, quando uma publicidade de cam site sugere ao homem que ele esvazie a subjetividade de uma mulher e a desumanize completamente, ele o faz. Nesta situação, confunde-se o sujeito (a mulher) com o produto (a interação online), e a mulher é vista como um objeto na frente da sua webcam, e nada além disso. Em outras palavras, o trabalho é confundido com quem executa a atividade profissional. Portanto, o diálogo com os homens é parte fundamental do trabalho da NCP.

É preciso ensiná-los que o camming não pode continuar sendo um vale-tudo-digital, que as mulheres não estão sujeitas a "qualquer coisa" por alguma gorjeta, e, especialmente, que elas não gostam de ser humilhadas. Os homens não percebem que as mulheres se sentem desrespeitadas quando eles demandam ação sexual instantânea sem nem ao menos cumprimenta-las porque é exatamente isso que os anúncios publicitários os encorajam a fazer.


Quem permite que a prestação do serviço da camgirl inclua a desumanização da mulher é o minúsculo oligopólio de empresas que controla este mercado. Isto é, são os camsites que criam as regras abusivas e as propagandas deploráveis que anunciam a mulher como uma mercadoria sexual, completamente objetificada.

Por isso, é urgente que a tomada de consciência venha do próprio homem. Atividades profissionais que envolvam erotismo não podem ser associadas ao aniquilamento da subjetividade de quem presta o serviço — ainda que o site permita, ainda que o anúncio publicitário estimule.





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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017). Organizador: Eugênio Trivinho.

Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.


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SOBRE OS ARTIGOS DA NCP

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal (por enquanto).


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SOBRE O PROJETO NEW CAMMING PERSPECTIVE (NCP)

O projeto New Camming Perspective (NCP) é responsável pelo trabalho pioneiro de desvincular o Camming da ação sexual instantânea (pornografia) para, em seu lugar, associar a atividade profissional ao afeto, à conectividade e à interatividade entre pessoas. Por enquanto, a Indústria Adulta configura-se como um "Faroeste Digital", uma espécie de terra-sem-lei no qual o plágio é consentido abertamente.

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