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O camming NÃO é o "uber do pornô"

Updated: Dec 27, 2020

Por Drª Priscila Magossi (PUC-SP)



O projeto New Camming Perspective (NCP) é a primeira — e ainda a única — iniciativa de contenção de danos do setor de Live Cams, desenvolvida a partir do mapeamento completo das operações sigilosas deste mercado.


No intuito de combater a desinformação sobre o tema, é fundamental esclarecer porquê o camming NÃO é o "uber do pornô".


Meme adaptado do Instagram @realidadesimulada



Principais diferenças entre a Indústria de Camming x Indústria "do pornô"


Logo de início é imprescindível que seja pontuado que a Indústria de Live Cams não é a mesma Indústria da Pornografia, tampouco da Prostituição. Isto significa que não são as mesmas empresas que controlam o mercado, e não são as mesmas mulheres que executam a atividade profissional na maioria dos casos.


Define-se "camming" pela relação estabelecida entre o usuário e a/o modelo que se apresenta por intermédio da sua webcam em uma plataforma online. Não há a possibilidade de se pensar em camming sem que haja conectividade entre pessoas. O diálogo, portanto, é imprescindível. Já a pornografia, por sua vez, caracteriza-se pela ação sexual instantânea. Conclui-se, portanto, que tanto a ação quanto a intenção de ambos (camming X pornografia) são diferentes.


A Indústria de webcammming opera majoritariamente em países periféricos do leste Europeu (Romênia, Rússia e Ucrânia) e da América Latina (Colômbia e Brasil). Já as operações financeiras, por sua vez, operam em países desenvolvidos e/ou paraísos fiscais, tais como: Andorra, Belize, Budapeste, Cyprus, EUA, Israel, Luxemburgo, Malta. A Indústria pornográfica atua, predominantemente, nos EUA.


Principais diferenças entre a Indústria de Camming x Uber


Esclarecidas as principais diferenças entre ambas as Indústrias (camming x pornografia), seguem as principais diferenças entre uber x camming:


  • O motorista de uber não é obrigado a assinar um contrato leonino com a plataforma cedendo o direito de uso irrestrito, irrevogável e infinito da sua imagem para conseguir dirigir o carro. Na indústria de camming, caso a modelo queira trabalhar, ela é obrigada a assinar este contrato.

  • No Uber, o usuário pede um motorista indiferenciado. Todos são iguais, é homogêneo. No camming o usuário escolhe dentre um leque enorme de "motoristas". Se uma modelo não se sujeitar à objetificação e à desumanização, o usuário pode procurar por outra que se sujeite. A plataforma, por sua vez, dará mais visibilidade para a modelo que for do tipo "topa-tudo-por-dinheiro". Em geral, não há escrúpulos ou qualquer compromisso para com a saúde física e mental das mulheres.

  • No uber, não há vibradores interativos. Isto é, o motorista não dirige não com uma máquina de penetração inserida em seu corpo e que é controlada pelo usuário. No camming, a modelo é estimulada a comprar este objeto de tortura para ser controlado pelo usuário e dizer que gosta disso para ter mais visibilidade na plataforma em que trabalha.

  • No uber, o tráfego de usuários é distribuído de acordo com a região em que o motorista se encontra. No camming, as plataformas direcionam o tráfego de usuário de acordo com os seus interesses. Isto é, modelos mais passivas recebem maior volume de tráfego do que modelos que optam por preservar a sua saúde física e mental.

  • No uber, o motorista usa o seu nome real. Há aceitação social. No camming, a modelo usa um apelido. Vive "vida-dupla" na maioria dos casos. É um trabalho discriminado socialmente. É do interesse da indústria de webcamming que as modelos se mantenham envergonhadas da sua atividade profissional, pois, assim, permanecem em condições de maior vulnerabilidade. Isto é, mais fácil de serem domesticadas.

  • No Uber, se o motorista for desrespeitado, ele pode denunciar o usuário à plataforma. No camming, se a "motorista" for desrespeitada, a plataforma envia uma mensagem automática ao usuário que a desrespeitou, encorajando o desrespeito "Thank you babe, I love it!".


Superar a opressão exige, antes de tudo, a conscientização de tais práticas. Portanto, investigar, conceituar e definir é fundamental.


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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017).


Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): Trata-se de (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.

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SOBRE O ARTIGO

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal.

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