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New Camming Perspective (NCP) confronta mais uma campanha abusiva de Natal

Updated: Dec 24, 2020

Papai Noel não esquece ninguém, mas o site só lembra de quem ficar online 72h seguidas, Ho Ho Ho


Por Drª Priscila Magossi (PUC-SP)



Para os empresários do setor de webcamming, a mercadoria em questão é a sexualidade dos homens e das mulheres. O bom profissional da área de propaganda, publicidade e marketing precisa ser eficiente naquilo que é contratado para fazer: gerar mais lucro para a empresa. Custe o que custar.


Assim, o departamento de marketing dessas empresas se empenha em manipular o comportamento e o desejo de (1) consumidores e (2) mulheres enquanto os (3) empresários-opressores do setor se mantêm invisíveis. Entretanto, a manipulação precisa ser sofisticada e sutil o suficiente para que tanto o consumidor quanto as próprias modelos do site acreditem que a escolha foi espontânea.


Neste momento, é importante ressaltar que os profissionais que tomam as decisões nesses departamentos não são assessorados por cientistas sociais, tampouco profissionais da área da saúde, tais como psicólogos e psiquiatras. Ou seja, os anúncios publicitários são desenvolvidos sem que haja necessariamente um nível mínimo de integridade e ética profissional ou até mesmo algum compromisso para com a saúde física e mental das modelos e dos usuários.



Lawful Evil estrategicamente calculando cada palavrinha fofa da sua campanha abusiva

de natal para enganar modelos e usuários



Crueldade cinicamente apresentada como brincadeira


Quando um anúncio publicitário de um cam site sugere às suas modelos que elas fiquem online o máximo de tempo possível, por 3 dias seguidos, "ajudando o papai Noel a empurrar o seu trenó", o que está sendo pedido, de fato, é que a mulher se sujeite a uma jornada de trabalho abusiva de 72 horas, no Natal!


Entretanto, a manipulação é cínica a ponto de se tentar vender o abuso, a humilhação, a tortura física e psicológica como nada além de uma brincadeira divertida para todos.


Faz parte da lógica perversa do setor convencer as mulheres — e os usuários — de que tudo isso é razoável, saudável e fofinho, até mesmo porque participa "quem quiser". Para isso, a crueldade é transformada em espetáculo distópico, e o site elege "vencedoras" para a "promoção"! Isto é, as 10 mulheres que tiverem suportado tamanha tortura física e psicológica por mais tempo recebem um "prêmio" do site para o qual trabalha!


A premiação é um estímulo para que as próprias modelos passem a competir entre si, na busca por algum tipo de “reconhecimento” e, assim, “esqueçam” as violências e aceitem sem resistência a essas condições que lhes são impostas para conseguirem trabalhar e receber algum dinheiro.


O rastro de destruição desse processo não termina aí. Essas empresas contratam e remuneram representantes e capatazes para “vestir a camisa da empresa” e defender em todas as instâncias possíveis que toda a barbárie descrita aqui trata-se, na verdade, de “empoderamento feminino”.


Obviamente que está claro para todos que a mera possibilidade de conseguir sobreviver financeiramente NÃO é empoderamento feminino. Afinal, todo mundo trabalha porque precisa. Apenas na ilusão de uma mente muito perturbada a camgirl trabalha em condições insalubres porque sente muito prazer.


Não são os tomadores de decisão de cada site que estão expostos nús, com vibradores “interativos” porque amam muito tudo isso! Segundo o imaginário que esses empresários tentam construir, a camgirl é a única profissional do mundo que fica à toa na frente da sua webcam porque não tem mais nada para fazer da vida. Essa manipulação cínica precisa ser denunciada. Atividades profissionais que esvaziam a humanidade de um ser humano e lhe causam adoecimento e sofrimento são eticamente inaceitáveis.



Considerações Finais


A proposta do projeto New Camming Perspective (NCP) é que a Indústria de webcamming seja ressignificada sobre bases sustentáveis no longo prazo. É preciso impedir que continuem sendo feitos anúncios encorajando as mulheres a se subjugarem e os usuários a maltratá-las.


É óbvio que as modelos não podem resolver os problemas do setor sozinha porque são problemas estruturais. As mulheres que trabalham para esses sites não têm muita opção senão aceitarem vestir a camisa da empresa opressora. Elas precisam sobreviver financeiramente, e aquela é a única possibilidade que lhes foi apresentada — se quiserem trabalhar no camming. É o sistema que precisa mudar e entregar condições dignas de trabalho para elas.


Para finalizar, é fundamental dizer que não são todas as empresas deste setor que operam de modo desumano e fazem anúncios publicitários abusivos tais como essa campanha pavorosa de “maratona de Natal”. Existem alguns profissionais éticos nesta Indústria — obviamente que esses não têm vergonha de serem associados ao próprio empreendimento. Ao longo da última década, a NCP tem constantemente tecido elogios a todos esses profissionais que têm se esforçado para conter os danos e humanizar esse faroeste digital, que é a Indústria de Webcamming no Brasil e no mundo.


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SOBRE A AUTORA

Priscila Magossi é jornalista (Mackenzie-SP), Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), pesquisadora acadêmica (ABCIBER). Magossi é autora do livro “Ritualidades e vida cotidiana na cultura digital: uma investigação sobre os processos de comunicação e ritualização no ciberespaço” (2020) e do capítulo "Comunicação e velocidade na civilização tecnológica atual In: A explosão do cibermundo: velocidade, comunicação e (trans) política na civilização tecnológica atual (2017).


Magossi é fundadora/CEO do projeto New Camming Perspective (NCP): Trata-se de (1) um mapeamento das operações sigilosas do setor de Live Cams, (2) um novo modelo de negócios para empresas, e (3) um programa de treinamento para modelos. A finalidade da proposta é a contenção de danos e a humanização deste mercado. A expectativa é que práticas dignas tornem-se ritualidades cotidianas no setor.

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SOBRE O ARTIGO

As publicações da NCP não são direcionadas a pessoas físicas e/ou jurídicas em particular. Tampouco nos posicionamos como adversárias da Indústria de webcams. Nossa intenção é estimular o pensamento crítico entre as profissionais e os tomadores de decisão do setor, tendo em vista que muito do que é desumano não é necessariamente ilegal.



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